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ÀS VEZES SIM | 04Mai2009 15:00:00

A imaginação é um instrumento quando mal usado é perigoso assim como a forma como usamos as nossas mãos com os seus dedos: cumprimentar, disparar, apontar, escrever, etc.

Sei que a vida é uma película de filme alargado em anos e décadas. Sei que um monstro não se domestica facilmente. Pode-se, em todo o caso, escondê-lo debaixo de uma pele que por certo não será conferida.

Mas o monstro anda e vagueia, dorme e acorda todos os dias diante dos olhos do nosso sangue. O coração ali, batendo, batendo, como que recebendo ordens, sempre a trabalhar, sempre a manter-nos vivos. Agora imagina alguém que ama demais o coração de outrém e o queira como objecto macio nas palmas das mãos. Arrancar um coração é uma imagem brutal e animalesca.

Não se pode extrair o amor com violência. Mas pensar e imaginar é o bom que a liberdade tem. Um homem e uma mulher que se amavam felizes, com projectos a dois, histórias ao ouvido, calores na pele, um dia puff tudo acaba, a embalagem frágil, que é o amor, é violada e estraga-se em segundos a pintura de uma vida.

Sofrer é um pedaço de nós. Amar é um estômago que armazena carícias e beijos.

A mulher chora pelo dever feminino, seus olhos diminuem, enlouquecem, as chamas incêndeiam os lábios quando pensam um no outro. A noite é antiga como o silêncio das bruxas. Ambas existem, mas onde? Eu sei que as definições não nos levam a lado nenhum assim como a morte que se adia. Era um dia sereno, com os grilos a encher os ouvidos, a criançada com os seus catecismos juntos aos peitos, o homem persegue a que fora sua mulher, persegue-a porque sente que ainda a ama e o ciúme é um ser dominante.

quere-a de volta

Sem que ela desse conta, na primeira oportunidade, e o barulho da criançada a ficar para trás, muito para trás, ele não compreende que morrendo o amor morrem as palavras, o lugar ermo é perfeito para se fazer vítimas, agora sim, tenta-a dominar com a vantagem da sua força.

o amor pode ressuscitar, amar duas vezes a mesma mulher?

Ela grita, ela esperneia, ele levanta-lhe a saia, ela aperta as coxas, tenta a libertação, uma mão, um braço, um soco na testa dele, ele ferra-lhe no pescoço porque não a consegue beijar, deita-a no chão, mostra-lhe o pénis levantado, ela implora para que não não não, ele sorri como um boi em pasto, ela acalma-se, sabe que deve participar, ouviu dizer que nestes casos é melhor assim, a vida não se salva com pontapés, deixou por instantes o monstro entrar em si, depois disso foi só conseguir fechar os olhos, morrendo devagar por perdoar, só mais esta vez.

 


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