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(teoria dos calhaus)

hoje sim amanhã não - 19Mar2010 11:39:00

Era terrível se não houvesse amanhã.
Se soubéssemos que isto tudo, pum.
E as bibliotecas em chamas.
E os heróis sem nada a fazer.
E os poetas com dores intestinais.
Eu chupava um rebuçado e aguardava serenamente o desfecho,
saldando os pecados, preparando duas mudas de roupa lavada,
 uns quantos cigarros para o caso de a viagem para o outro lado ser longa.

Depois ligava a uns bons amigos e contava-lhes a última adivinha do século
ao mesmo tempo que lhes recomendaria calma.
Afinal de contas amanhã vamo-nos todos encontrar. Só que em outro lugar.
Despedia-me dos pássaros e das árvores,
olhava a terra com a leveza de uma música gregoriana,
aos meus vizinhos era um até já.
E, se ainda restasse um tempinho, terminaria um poema que anda comigo às voltas pelo mundo.
Algo sobre o amor de um peixe com uma gaivota.

Claro que tudo isto não passa de uma suposição já que ninguém vem cá dizer que esta loja universal vai encerrar para obras.
Divirto-me a calcular suposições, a tirar partido da minha ironia.
A fé está criando versões do original.
Os homens lamentam-se por saberem que a vida não é uma vida inteira.
Bem, já estou atrasado, já escuto um comboio a apitar que, por certo, fascinado em cortar os montes e os céus.
Se não houvesse amanhã acenderia um cigarro com os dedos,
dizia a deus: espera aí que já vou,
corria até ao mar para lhe dizer: sinto muito.
A dúvida é sim a maior certeza.
Amanhã pode estar calor mas o frio conserva melhor, até os pensamentos.
Portanto, antecipo a minha morte para amanhã,
porque hoje, ó porque hoje posso não estar aqui.

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/03/hoje-sim-amanha-nao.html

- 15Mar2010 15:00:00

Amor

peço-te que juntes todas as estrelas num monte
e mostra-me o pormenor do hálito do silêncio
Põe a escada pensativa para descer e vê quem sou
Abraça-me com modos às cegas
desse modo saberás então que em meu corpo o xisto brilhará

Escrevo porque o vinho é coisa muito
Se pensas que a Verdade não existe
Experimenta o diálogo com as águas
Os peixes virão à tona segredar-te
O que é o amor
Essa beleza predadora

Amor
O movimento de translação só é possível com a força do ódio
Mandemos parar o Tempo com um grito
Antes que a boca mastigue em vão
E o polvo que habita algures no corpo ressuscite

Não faças do silêncio uma eterna apólice
Recusa essa sábia beleza
Em minhas mãos terás o conhecimento da terra que fora revolvida
Onde o silêncio defeca com serenidade

Sei lá que montanha me dedica o seu desnorte
Sei lá que horizonte combina com o meu traje de poeta
Sabias que tenho vindo a adiar sucessivas mortes
E nada me deste

Lembro que em teu corpo perdi a consciência
Agora ando por aí como o fruto que não vai ter a mão nenhuma
Enrolado no útero da terra
Onde um bicho morde o ânus

Amor

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/03/amor-peco-te-que-juntes-todas-as.html

- 10Mar2010 08:39:00

Que me ceguem as tardes
Que me roubem a alegria ao subir da estrada
Ou que todos os bichos me visitem quando estiver a fazer amor
Se esse amor não tiver contornos de uma rosa

Eu amo uma mulher
Uma epopeia de ventos e sóis
Uma árvore que cresce no sentido dos meus pulmões

Pergunto:
Tenho a janela aberta, será que dói?
Quem tem gramática para compreender o implacável silêncio?


Aqui estou de frente ao tempo invisível
A dar-lhe palha por uma fechadura
Multiplicando abelhas para sermos muitos mais que um Desejo

Que a minha loucura seja tabaco de enrolar
Que a solidão seja o espelho em que me olho e não veja porra nenhuma!
Amo as coisas que se formam no precipício da carne
Os azuis tão inocentes de um nada
A claridade que bate e perfura o mais íntimo de nós

Eu digo: a minha cabeça é um rebanho de ovelhas
O meu corpo: o pastor que se perdeu no pasto
Pena é que a lucidez não se beba por um copo
Nem que a verdade aceite fiado
O amor é aqui e agora: pele contra pele
E não sequer pensar que futuro é
Para a semana que vem

Amo sem nunca ter assinado contrato
Sem nunca ter ido a uma biblioteca
Ou escutado a dor em greve de fome
Crio o vazio e nele creio
Como creio na libertação das minhas mãos
No barro que moldo as manhãs primordiais

Amo o analfabetismo do meu sangue
Amo os insectos que me esperam no caminho
Amo o cansaço com que me deito
Amo e sou feliz nessa contradição

Posso até ser a morte viva
Um lápis à espera de ser aparado
Mas amo! Amo!
Amo e canto a serenata no hall do silêncio
e faço sexo com o meu nariz!

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/03/que-me-ceguem-as-tardes-que-me-roubem.html

- 05Mar2010 09:43:00

O que é o amor?, é um dos lados do Sol!

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/03/o-que-e-o-amor-e-um-dos-lados-do-sol.html

- 02Mar2010 20:21:00

os cântaros, por muito que venham cheios, nunca matam a sede verdadeira

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/03/os-cantaros-por-muito-que-venham-cheios.html

- 27Fev2010 14:51:00

A vida é séria e com a morte não se brinca

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/vida-e-seria-e-com-morte-nao-se-brinca.html

- 26Fev2010 08:20:00

ama com a força de um povo inteiro

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/bom-dia-estou-de-saida-para-barcelos.html

- 22Fev2010 20:36:00

Não desistas de seres alguém
Sê capaz de te suicidares num poema
Mas atenção que a Vida não se pinta com Robbialac

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/nao-desistas-de-seres-alguem-se-capaz.html

- 20Fev2010 15:03:00



Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/blog-post.html

- 20Fev2010 14:57:00

A morte é um veículo veloz.
No poço todos os murmúrios são cantos de galinha.
Ó que zombie tão estridente é o mar!
O Homem tem as plantas como seu tesão.
A Gravidade está prestes a ser um feno comido pelos bois.
E a certeza é que debaixo da pele: um fogo-posto

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/morte-e-um-veiculo-veloz.html

- 19Fev2010 15:17:00

sim, meu irmão, um dia chegará a hora de vestir novo fato. meter a cabeça no silêncio. construir nova infância.
até lá remamos. com braços de leme. grito de farol quando um barco se despenha. poderia falar-te da morte. mas é de vida que os mares são feitos. nossas rugas assinaladas são férteis memórias. o que dói é tudo o que está vivo. escuta-te para lá dos ossos e da carne. recorda-te que ao subires o monte também cresces. porque algo em ti renasce a cada instante. e não há poema maior do que o céu em noite de s. joão. sim, meu irmão, espero-te no cume desta montanha, o amor é já, mais intenso que uma colina, dedos na boca de um assobiador que chama pelos pássaros. vem, meu irmão, subir a terra, olhar o sexo do mar, entender de vez o sistema lunar. diz-me lá se não é bom estarmos aqui nestas alturas, tão próximos do céu que a verdade é uma cereja em nossos lábios


***

Não existe noite neste lugar: que são músculos salientes da terra. por aqui passaram poetas e trovadores, cientistas e saltimbancos, na tentativa de tocarem no céu. os pastores conhecem os trilhos, traçados pelos cascos dos animais. sabem que mais ali existe um rio pelo cheiro das amoras silvestres, pela chuva que cai e no chão da terra desenha um mapa. Os pastores tocam flauta como se fosse assobios de anjos. olha meu filho, vê os cavalos no expoente máximo da liberdade! pede ao arcanjo miguel que assim sejas quando fores grande. dar-te-á asas se à noitinha lhe pedires conselho. não temas a noite nem tão-pouco o uivo dos lobos. eles são ventos que outrora também foram à escola aprender. sabias que o senhor Torga passou por aqui e deu nome às pedras e às plantas? sabias que o silêncio da noite é uma pausa para olharmos as estrelas nos seus esplendores? çalca as botas, chama pela tua ovelha e vai. diz à mãe que acenda a lareira no quintal. esta noite, enquanto sujamos a boca com os grelhados e o eco do riso se prolongar até ao amanhecer, o poço vai encher-se de estrelas.


Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/sim-meu-irmao-um-dia-chegara-hora-de.html

- 15Fev2010 18:16:00

se o amor é uma ciência, a foda é uma religião

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/se-o-amor-e-uma-ciencia-foda-e-uma.html

- 12Fev2010 20:29:00

Por favor, queria dois quilos de ilusões. Ilusões, já não temos, acabaram ontem. Mas temos fantasias tenebrosas, sei que não é o mesmo, mas tem efeitos desejados. Contra-indicações? Para já, queixa nenhuma. Melhor não arriscar. E sonhos avulsos, sei lá, qualquer coisa em promoção, um ir e vir num jacto celeste. Tenho apenas um, que veio devolvido de uma senhora muito rica que sonhava ser um navio de oito patas para rasgar o firmamento. Como se deu mal pelo caminho, teve de regressar de imediato, acabando por aterrar em si mesma e, quando se viu ao espelho, tinha a boca cozida por um grosso fio de silêncio. Dizem que viu algo semelhante a um céu a arder. Enfim, enlouqueceu-se.

Mas ainda tenho na prateleira esperanças em comprimidos a bom preço, ou então ideologias ficcionadas sobre a atitude animal no colo de Deus. Desculpe, não sou homem de conflitos, preferia algo mais concreto, sem peso de consciência, mais do tipo aventura. Venha comigo! O homem, vestido com um fato de grilo, conduziu-me para uns escombros onde anjos e saltimbancos e anões jogavam à bola. (pausa para respirar) Por favor, dê-me apenas um comprimido para acordar.


Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/por-favor-queria-dois-quilos-de-ilusoes.html

- 08Fev2010 13:59:00

Por que não olhas pelas criancinhas, pá? Por que não estás onde devias estar? Por que não respondes quando te perguntam? Deus, que conversa vem a ser essa de andares para aí a dizer que uns se salvam e outros não? Quem te fez assim tão ventoso que por vezes nem te escuto? Responde, pá! Inventaste os super-heróis para fazer serviço extra? Mandaste os poetas para a terra despachar certos assuntos que não ousas falar? Deus, e o amor? Responde, pá! Serás tu o nosso Deus bandido? Será o teu silêncio a maneira romântica de seres alguém? No fundo admiro-te, pá, porque, embora triste e olhar distante, mãos deprimidas, eu sei que tens as costas largas.


Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/por-que-nao-olhas-pelas-criancinhas-pa.html

- 06Fev2010 21:02:00

Era obsessivo, o pintor. Chegou a ser tão obsessivo com a sua arte, tão obsessivo, que um dia fez amor com uma natureza morta, e ressuscitou-a!

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/era-obsessivo-o-pintor.html

- 05Fev2010 14:20:00


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa)

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/posso-ter-defeitos-viver-ansioso-e.html

- 05Fev2010 09:01:00

ele - se vens da Fonte por que trazes a Sede?

ela - porque na boca da alma tenho muitas reticências, que é por onde a água escorre!

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/ele-se-vens-da-fonte-por-que-trazes.html

- 02Fev2010 18:16:00

- Por que levas o livro debaixo do braço, ó pastor se, pelo que dizem, nem sequer sabes ler nem escrever?

- Se assim for, por que levas tu, ó homem, essa mulher pelo braço se, pelo que dizem, não sabes amar?

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/02/por-que-levas-o-livro-debaixo-do-braco.html

sexto andar - 29Jan2010 18:08:00

O homem acabou de se lançar do sexto andar. Podia ter escolhido outro andar mais alto ou mais baixo, mas não, preferiu aquele e nem sequer lá mora. É um sexto andar igual a um sexto andar em todo o mundo. O seis é uma representação numérica para que saibamos quantificar.
O seis nesta Lisboa é igual a seis em Chinatown ou em Moscovo. Os sextos andares são bons para quem está a aprender saxofone. O som mistura-se na leveza do vento, transportando-o para outras janelas dos edifícios. E passa paredes também.

As pessoas interrogam-se: por quê do sexto andar se o seis nem é número misterioso? Talvez fosse o único que tivesse o parapeito com todas aquelas flores e uma rede para baloiçar. A escolha de um número pode não ser à toa. Se o homem escolheu o piso seis é porque algo no seis lhe fez pensar com excesso de maturidade. Uma briga com a amante que mora no sexto andar? Ou uma questão básica de raciocínio? Do tipo: foi a partir do seis que ele se atirou como podia ter sido do vigésimo.

Na cabeça da ciência a resolução pode ser essa, mas na minha não cabe tal explicação. A decisão do homem em se ter atirado do sexto andar pode-se dar ao facto de o número seis ter alguma vantagem em relação aos outros números.
Que eu saiba na história o seis não é uma data com registos heróicos relevantes nem marco de alguma descoberta marítima ou científica. Seis pode ser o dia do seu aniversário e quereria ele morrer no dia em nasceu? Sim, pode, mas não creio. Seria lógico demais. Matemos esta hipótese.

Milhares de pessoas assistiram à queda do homem a partir do sexto andar. O que provoca dúvidas não é a morte mas sim o sexto andar, como já se perceberam. O 6 é uma ironia , pelo facto de ser um nove invertido.
Perguntam as pessoas cá em baixo: enganaria-se ele no número? O nove mata mais depressa. o nove tem o dez ali à beira, não há que duvidar. O nove é ímpar e, como ímpar que é não dá para duas pessoas repartirem por inteiro.

O homem morreu e disso não haja dúvidas. As pessoas choraram não o homem que se quedou mas sim o não saber a resposta ao número seis. Fizeram comparações com outros que se atiraram de outros andares, mediram distâncias do chão ao parapeito do sexto andar.
Pena que ele não tivesse ficado pelo menos meio-vivo para lhe fazer a pergunta directamente: por quê um sexto andar?, e ouvir da sua boca a resposta.
Depois, sim, podia morrer com a serenidade que desejou.

Não se deve morrer e deixar dúvidas nos que cá ficam.
É de mau gosto, acham as pessoas que, de tanto interrogar, de tanto interrogar, houve duas que, discretamente, movidas a silêncio, desviaram-se da multidão, subiram ao sexto andar, matando dúvidas em cada degrau, em cada piso acendia-se uma pista e, por saberem que a solução só se encontra no final ou, que os segredos só se descobrem quando metemos o focinhos bem lá no meio, fizeram questão em experimentar um sexto andar.
Depois,desta nova queda, alguém apresentou a solução: os sextos andares são surdos.
Detalhe pouco significativo: às seis horas da tarde, o coração do morto despertou como um relógio antigo de cabeceira. E as pessoas foram-se embora com a certeza que até a própria certeza levanta dúvidas.


Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/sexto-andar.html

- 26Jan2010 15:47:00



Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/blog-post.html

preciso enlouquecer - 22Jan2010 13:44:00

Preciso de enlouquecer. De tornar ósseo o que escrevo. Ando nisto há dias.
O Herberto diz-me que talvez consiga se engolir uma lâmpada acesa.
Mas só que o herberto havia de saber que as lâmpadas provocam má digestão.
O herberto não percebe de micro-organismos ambulantes. o herberto é toda uma ciência que ainda há-de vir.
Preciso enlouquecer. De esquecer tudo o que me lembra, alimentar o sangue com o que mais bárbaro existe por aí. As pedras que revestem sepulturas sempre são bons motivos de contemplação. Eu olha-as com a ternura de uma enxada e rasgo a face, como podia rasgar este céu para que caiam os livros.

Os poemas não precisam de comprimidos para que se entenda a sua dor. Sofrer é uma longa expressão, longa caminhada por esses montes desconhecidos e silenciosos adiante. Por que me fogem as mãos para o pescoço? Lá fora o frio faz atrasar um navio, e as mãos, tão trémulas, deixam de sonhar. Quem nasce rio morre rio?
Preciso enlouquecer. Tirar proveito dos tsunamis, trocar os pés pelas mãos e subir a rua que desce. Não basta pôr um dedo na alta voltagem para que o grito saia como uma bala. Gritar exige uma dor mais além. A poesia não é grão que se colha por aí. Ela compra e vende ao mais alto preço da dor, agitando a vara contra as palavras, num redemoinho de metáforas com cabeça, tronco e asas. As explicações tornam o poeta eunuco.
Nunca a vida soube dizer que é, quem foi. Uma imagem é sequência brutal de filhos a nascer à deriva. Por que me vês tão mar? Da vida conheço as grandes canções, os pescadores dos livros de História.

Se as flores possuem tímpanos é hora de falar da loucura com o sexo bem atiçado. Eu digo que a morte é estúpida pela mania que tem em dizer volto já. O único segredo é o amor. Que nos faz sonhar sem selo de garantia.
Preciso de enlouquecer, de tornar óbvio o sangue das palavras, dar uma passa num poema bastante enrolado e cair dentro de mim em serena manhã.
Do que sou falarei mais tarde, quando nascer a verdade na amputação do silêncio. Uma mulher abeirou-se de mim, trazia uma tocha acesa segura pelas duas mãos, perguntou-me, você é louco? Calado, dei quatro voltas ao pescoço e ofereci-lhe a minha cabeça.

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/preciso-enlouquecer.html

- 20Jan2010 21:46:00

que os teus abraços abertos sugiram o voo
e que na brandura do sono a tua cabeça seja o ceptro
onde nenhum servo põe a mão,
pois só tu és águia na raiz do firmamento

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/que-os-teus-abracos-abertos-sugiram-o.html

- 17Jan2010 21:42:00

Sem dizer porquê vai ao princípio da terra banhar o teu coração
Torna-o quente para que se entenda ao falar
Depois volta com a luz sobrante dos relâmpagos
Acende os bagos que jazem na terra derramada
Toca nos homens pela raiz
Dá-lhes a força de uma casa cheia
E por fim faz cair sobre este mundo
Um poema sem vontade de dormir!

Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/sem-dizer-porque-vai-ao-principio-da.html

- 15Jan2010 08:46:00

Lá fora chove e, a razão de chover, só deus sabe. Posso imaginar mil e uma razões da mesma forma que mil e uma razões podem imaginar o que sou. Mas isso, é conversa mais lá para diante. Num futuro destes. Falo da chuva porque foi num dia de tempestade que o poema se afastou da casa levando consigo os versos mais rugosos. Ar triste de quem carrega vinte quilos de assombramento, se assombramentos tivessem forma de objecto para colocar numa balança. O poema é uma esperança de vida. Que hei-de eu cantar agora?

Do longe tento adivinhar mas caio no ridículo por tentar adivinhar. A vida soma e subtrai desagrados. E pateta é aquele que julga que não. Pensar no amanhã é um exercício que só faz bem, pois a dor nunca se habitua. Como sentir a noite por dentro dos olhos. O que sei do tempo é do que vejo e sinto. As horas podem ser tudo, mas nunca são retornos.

Lá fora chove. Há existências que acabam num rio. E o poema era quem assistia à chuva aqui comigo. Soprava-me com aquela força de arrombar todos os segredos. E fazíamos amor diante do Tempo. Amadurecendo. Multicores. A sonhar tão amplamente. tão amplamente.
Lá fora chove. O poema segrega uma fresca porcelana. É bom ter horas. Esquecer. O azul que não o é. Relembrar. A ave pronta. Esquecer. Relembrar. A loucura em castiçal. Sonho. Não mais irei correr atrás do frio!


Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/la-fora-chove-e-razao-de-chover-so-deus.html

crónica dos Quase - 13Jan2010 21:32:00

Vocês nem queiram saber, mas quase que não escrevia a tempo esta crónica, pois quando estava para atravessar o atlântico numa jangada, ainda a poucos metros da encosta da Apúlia, quase que era apanhado por uma baleia branca.
Depois vim a saber que era um mergulhador à procura de vestígios da sua última relação com uma ostra.


Por isso decidi voltar. E saibam que quase eu não me apanhava em casa.
Por jeitos eu tinha ido comprar fósforos e, pelo caminho de Santiago, quase me cruzei com um bombista da Al-Qaeda que, por sorte minha, deu-lhe uma súbita vontade de urinar.
Você pode nem acreditar, assim que acendi um cigarro a Cláudia Shiffer veio-me pedir lume. Senão era ela, quase que era. Por ser tão loira que fiquei encandeado na sua beleza. Há quem diga que nem o Photoshop faria melhor.

No outro dia quase morri. Sério! Assim que o dentista me disse quanto era. Ó, o quanto desejei de novo a dor de dentes. Saí do consultório com uma neura que quase me dava o tal treco que o psiquiatra vem anunciando.
Se não fosse um número e uma estrela no euromilhões eu quase que ganhava muitos amigos. Tantos que eu quase que nem os saberia contar nem saberia de onde vieram, assim tão do nada.
O meu amigo Pedro quase que apanhava a sua namoradinha com outro, o azar dele é que manca mais que a minha avó e demorou muito a lá chegar. Ela sempre foi muito largada. Inclusive uma vez ela me quis beijar mas, enquanto eu me lembrar da ferradela no queixo, jurei nunca mais.
Se não fosse aquele lance, o Benfica quase que se consagrava campeão nacional. Tive pena. Tanta pena que acabei por ganhar alergia e, sempre o meu clube perde, espirro até dar com pau.
Depois quase que caí de cu quando me disseram que a do terceiro esquerdo em tempos fora domadora de jibóias. Passei a ter mais respeitinho, não fosse eu acordar com uma cima do papo.
A minha vida é isto e quase que era aquilo se não fosse no outro dia descobrir que afinal aquela era aquele. E logo eu que sou macho bem comportado quase tropeçava nos seios dela, aliás, dele. Por sorte naquela cena de pancadaria não me feri, só tive foi de dar o nome completo à polícia.
Ai amor que quase torcia um pé. Ai mãe que estou quase sem dinheiro!
Ó mãe, o pai quase me bateu! Eu quase que era príncipe, isto é, se o meu pai fosse rei desta merda toda. Sabias que o André quase nasceu preto? A bebida quase me fez mazela no fígado.
Ela quase me sorriu. Os sapatos quase me serviam. Quase que ganhava a aposta na corrida dos cavalos, se não fosse ao número sete dar-lhe um ataque de cio.

Ele quase que dizia não no dia do casamento. Eu quase que dava em inteligente se na quarta classe não tivesse sido chamado para a tropa. A Mariana quase se matou de amor pelos meus beicinhos. Eu quase que não nascia, foi preciso a minha mãe dar um grito, com um insulto lá metido, quando o árbitro assinalou fora-de-jogo num lance que podia dar golo ao Benfica.

No outro dia quase me borrei nas calças.
Ela quase que ia virgem para o casamento!
Patrão, estou quase a chegar!
O país está quase-quase a andar para a frente.
Aquele carro quase que me limpava o sebo.
Tenho muitos, mas mesmo muitos quase amigos.
O que está a dar é ser quase.
Chiça, ela quase que dizia que o filho era meu.
Foi por quase, pá!
Se eu não tivesse ginástica suficiente, ela quase que me partia a espinha.
Ai mulher que aquele bicho quase me ferrou!
Sabes, estive quase a mandá-lo pró carvalho. Ui que a bola quase que entrava na baliza.
Ai que o mar quase que me engolia.
Ai Maria que trabalhar na França é quase o demónio.
Ai que quase lhe dava uma coisa má.
Ai que o meu primo esteve quase a dar o badagaio.
Ai que o primeiro-ministro quase que ia preso!
O Paulo Gonzo também disse: dei-te quase tudo (ou dói-me quase tudo?).
Por estas e por outras é que eu quase escrevia uma crónica.




Fonte: http://teoriadoscalhaus.blogspot.com/2010/01/cronica-dos-quase.html