- Blog -


- comente aqui -


os meus videos


agenda cultural


Painel controlo
  • Email:
  • Palavra-passe:
  • Lembrar dados
  • Ir administração


.



Membros Klub
som\poema\imagem

Nós vezes nós


Capa do meu
livro

Sondagens
Qual preferes?
Nós vezes nós
Liquida Obsessão
7º Vão
Sou um louco...
Anedotas
Está uma avózinha na sua cadeira de baloiço, a fazer malha, quando a neta lhe pergunta:
- Avó, o que é um amante?
- O quê? - pergunta a senhora.
- Um amante, o que é?!...
A senhora larga tudo e, muito aflita, sobe ao sótão a correr e abre um guarda-roupa, de onde cai um esqueleto.
Últimas Photum







(textos e poemas)

hoje sim amanhã não - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

Era terrível se não houvesse amanhã.
Se soubéssemos que isto tudo, pum.
E as bibliotecas em chamas.
E os heróis sem nada a fazer.
E os poetas com dores intestinais.
Eu chupava um rebuçado e aguardava serenamente o desfecho, saldando os pecados, preparando duas mudas de roupa lavada, uns quantos cigarros para o caso de a viagem para o outro lado ser longa.

Depois ligava a uns bons amigos e contava-lhes a última adivinha do século
ao mesmo tempo que lhes recomendaria calma.
Afinal de contas amanhã vamo-nos todos encontrar. Só que em outro lugar.
Despedia-me dos pássaros e das árvores, olhava a terra com a leveza de uma música gregoriana,
aos meus vizinhos era um até já.
E, se ainda restasse um tempinho, terminaria um poema que anda comigo às voltas pelo mundo.
Algo sobre o amor de um peixe com uma gaivota.

Claro que tudo isto não passa de uma suposição já que ninguém vem cá dizer que esta loja universal vai encerrar para obras.
Divirto-me a calcular suposições,
a tirar partido da minha ironia.
A fé está criando versões do original.
Os homens lamentam-se por saberem que a vida não é uma vida inteira.

Bem, já estou atrasado, já escuto um comboio a apitar que, por certo, fascinado em cortar os montes e os céus.
Se não houvesse amanhã acenderia um cigarro com os dedos,
dizia a deus: espera aí que já vou,
corria até ao mar para lhe dizer: sinto muito.
A dúvida é sim a maior certeza.
Amanhã pode estar calor mas o frio conserva melhor, até os pensamentos.
Portanto, antecipo a minha morte para amanhã, porque hoje, ó porque hoje posso não estar aqui.

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=124533

O filme - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

O filme estava bom.
os actores a fazerem amor e eu a dar à manivela. pelo menos isso. também gosto de filmes com muita pancadaria.
isso faz-me forte e pensar que não sou o único a apanhar.
desde que a helena se foi que tenho ido assistir a filmes porno. a minha mente necessita de uma boa gramagem de depravações. fá-la correr mais depressa e sinto-me um poço de desejos.
pena é que a da fila da frente, com os seus cabelos longos, me tape um pouco as vistas. o gajo que está com ela deve-lhe ter o dedo lá dentro, pela forma como se mexe, aposto que sim. são sessenta minutos de sexo sem tirar fora. eu próprio me senti cansado e não era nada comigo. vim embora quase no final. e prometi a mim mesmo deixar-me destas merdas. a partir de hoje vou viver saudável, mente sã, corpo a regenar, e se possível arranjar uma tipa que seja certinha e que tenha o gosto que eu tenho por moedas antigas.

já disse, em último caso viro para o budismo e faço uma limpeza carnal bem a fundo. o wisky está a dar cabo de mim. a biópsia o dirá.
as madrugadas já não nem acendem um único desejo. fico em frente ao computador sem conseguir escrever um corno.
há dias assim. levanto o cu da cadeira e saio à rua. os autocarros vão cheios e está bom para gamar umas carteiras, tenho essa vontade mas falta-me vocação. tenho cinco euros no bolso e espero que renda uma boa bebedeira. o que se torna um castigo é que as mulheres daqui só aceitam falar comigo se lhes pagar um copo. e o problema é que elas só gostam do bom e do caro. a solução passa em me dedicar à pesca.

e assim foi. investi em dois anzóis, vinte metros de poleiro, cacei umas moscas, passei pelo canavial de um amigo e pedi-lhe uma cana jeitosa. no rio, o açude corria com uma certa violência, as lampreias deviam anda por ali, a desovar. com sorte e tal, arrancaria das águas dois almoços e três jantares, a minha experiência de outros anos assim o diz. uma hora no combate aos peixes e nada, nem lampreia nem truta nem tainhas nem a puta que o pariu!, o anzol só amarrava em lixo doméstico e de vez em quando umas camisas de vénus. o meu azar notava-se a milhas.

pensei em desistir, mas como sou chato como um chato, resolvi ficar, até que a sorte fizesse a sua justiça. quase amanhecendo, a minha barriga com um desassossego de criar zumbidos lá dentro, as minhas costas a perder o porte atlético e a ficarem curvas, tão curvadas que mais uns cêntimetros eu seria capaz de fazer um auto-broche, um peixe saltou-me para o colo. achei isto uma brincadeira de mau gosto, porque, normalmente, tudo o que me cai no colo, eu como.

mas, a compaixão fez de mim um ser porreiro. e levei-o para casa, meti-o num aquárizito e passei a dedicar o meu tempo ao peixe.
tornámo-nos amigos, confidentes, até. o peixe foi crescendo e tive de o mudar para uma bacia das grandes. eu não sei a que espécie pertence o peixe, pois eu de peixes só percebo é de os comer, nada mais. com o tempo, a miséria a apertar, o aspecto delicioso do peixe, a dar-me vontades de o cozinhar era cada vez maior.

por duas vezes coloquei-o sobre o tacho mas faltou-me coragem para acender o lume. apesar da fome, a minha compaixão era quase divina. alguém enviara aquele peixe para o meu colo por motivos bem fortes. eu nunca quis ver deus pelas costas, por isso trincava armários para matar a fome. e o peixe tão gordinho... tive de ser forte e olhar para o animal apenas com amizade.

e foi o que foi, brincava com ele, às vezes ele vinha ter bem pertinho da minha boca mas eu não tinha aqueles pensamentos de outrora. o meu espírito estava limpo como um caneco de vidro depois de ter ido à máquina de lavar loiça. a minha fome predadora transformou-se em palavras de renovação, palavras de amigo, inclusive, muitos amigos por estranharem esta minha nova forma de ser, pensaram que estava dando em bicha.

expliquei-lhes que foi uma luz. eles não entenderam e tive de explicar por gestos. logo aqui dispenso palavras. eles lá entenderam que deus aponta o dedo a uma ovelha e que depois temos a obrigação de o seguir. mais ou menos isto. eles riram. insistiram a perguntar se eu não voltei às drogas. eu fiz um ó com a boca e desandei para outros caminhos. a carlota, que agora não valhe um pentelho, quis meter treta comigo mas eu mandei-a de volta ao mar, como quem diz, ir chupar na quinta pata de um cavalo.

o problema é que não existe remédio para a incompreensão. mais duas voltas ao quarteirão e regressei a casa. fui para dar o boa-noite ao peixe e vi que ele estava desmaiado, melhor dizendo, morto. chorei. não vou descrever o choro porque os choros não se descrevem, o choro é tão nosso que, se somos apanhados em flagrante lágrimas, ainda escorre mais. três comprimidos com um gole de cerveja para dormir foi a melhor forma de resistir à noite e chegar e avistar a manhã pela manhãzinha.

vim à varanda cumprimentar o sol e dar um grito daqueles capazes de se ouvir dentro da imaginação de todos os homens. um autocarro cheio de gente parou. pessoas começaram a sair e outras a entrar. o motorista fez-me um gesto. por eu não ligar, ele repetiu-o. fui ter com ele. sem responder a qualquer formulário entrei no autocarro e levou-me para junto de um rio. nesse rio havia um único peixe que estava preso numa rocha. entrei dentro de água para o salvar e salvei-o. nunca mais o vi. nem peixe nem motorista.
coisas esquisitas aconteceram por ali que não sei traduzir. súbitamente uma nuvem negra deu lugar a um sol de praia entre as nove e as onze da manhã.
de quaisquer das formas deixei-me estar por ali, à cata de algum sossego, pois nessa hora tinha a sensação que ressucitara de uma morte por acontecer.

a vida, sei lá que caralho é a vida.
adormeci.
e tão depressa acordei numa sala de cinema, vazia, só a luz branca do projector na tela.
saí com uma ânsia entre os ossos. cá fora comentavam o filme sobre o amor incondicional de um homem e de um peixe, e o borburinho aumentou assim que me viram. e olhavam-me, e olhavam-me, que tanto que me olhavam que me apeteceu mandá-los para aquele sítio.

ignorar é sempre bom e foi o que eu fiz. desandei dali. corri várias ruas à procura de nada, os sinos entravam-me por um ouvido e saiam pelo outro, até que passei por uma montra de vestidos de noiva onde só havia dois manequins: um era um peixe com longas escamas brilhantes e o outro ia jurar que era parecido comigo.

caguei no assunto e rumei em direção a casa, à minha cama cheia de vestígios de sexo e borralhas de cigarro. farto de coincidências e interrogações, farto dos dias de pagamentos, farto dos dias sem criatividade, esgalhei uma e adormeci, profundamente ateu.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=123914

O Azarista - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

Neste sacrílego momento, o céu nada me diz. Dou quatro, cinco voltas à casa e não me acho. Perdi-me lá atrás, bem no fundo dos dias com a mala pronta para a despedida.
Nunca achei trevos com mais de três pétalas, nunca me disseram: vem daí tomar um café comigo. Raras são as mulheres que me beijam na face, para me cumprimentar estendem logo a mão.
Sou um azarista de nascença.
Aprendi a andar cedo por ninguém pegar em mim ao colo. Os gatos pretos para mim são como jóias: ponho-os ao pescoço.

Bato com a cabeça na parede e ela chora, a parede. Tudo é ruim, mesmo pronunciar a palavra ruim faz-me formigueiro nos tomates. Ó, eu não disse? A minha vida é um espanto, desculpe-me, não o quis espantar. Os autocarros não esperam por mim. Em dias de chuva os carros passam por cima das poças de água e eu fico como um pito molhado.

Nos restaurantes a sopa vem sempre fria, e quando vem quentinha o garçon faz o favor de ter o dedo metido nela. Calha-me sempre a mesa ao pé do WC. As moscas, sei lá porquê, gostam da minha filosofia.

Não há camisa que me assente, a costureira diz que é defeito de fabrico, o meu corpo. Tenho dias que mais parecem noite. Já fui humorista mas de tanto rir caíram-me os dentes da frente. Agora riem-se de mim, e eu choro feito aquele puto ranhoso e chorão do quadro famoso.
Quando estou a tomar banho, com o cabelo enshampoozado, falha sempre a água.

Quando vou às “tias” encontro sempre lá alguém conhecido. De manhã o meu Peugeot nunca pega, tenho de o empurrar por uma estrada a subir. Os vizinhos nestas alturas estão sempre com muita pressa, ou a fazer coisas. O meu papagaio ri-se eu enervo-me e desloco parcialmente o maxilar. Chamo os bombeiros e vem a polícia.

O meu número da porta é o 13. O meu número do telemóvel acaba em 13, casei-me num dia 13, tenho 13 dias para pagar ao senhorio. Sempre me deixei perder no jogo a ver se tinha sorte no amor. Fui levado na cantiga. Na rua, quando estou com uma vontade imensa de fazer xixi, aparece sempre a minha antiga professora da escola primária a perguntar como está o seu menino. E eu a fazer que danço. O meu aniversário é sempre naquela data em que ninguém se lembra. Quando vou para dizer uma coisa importante fico gago.

O pai natal manda-me muitos cumprimentos. A filha do Elias trocou-me pelo meu irmão gémeo. Todas as frutas que mordisco tem um bichinho lá dentro. Tenho pé de atleta e muita gente pensa que isso é uma vantagem para o desporto. Fui operado aos pulmões e o médico deixou lá o seu cachimbo cubano, aceso. Quando perdi a virgindade fiquei com a sensação que fizera com o sofá. A minha mente mente. Sou uma pessoa de difícil acesso, moro no alto de um pinheiro. Uma vez fui ao oceanário a Lisboa e um tubarão sorriu para mim. Só mais tarde é que soube que ele tinha laços parentesco para comigo. Na ópera ou é o telemóvel a tocar com a música da Shakira ou são aqueles ataques de tosse que me deram a alcunha de Espanta-mortos.
Quando alguém dá um pum as pessoas desconfiam logo de mim. Eu fico tão corado que nem plantação tomates serve como metáfora.
Se estou a ver uma montra por volta das onze da noite pensam sempre que a vou assaltar. O meu partido perdeu as siglas num combate. A minha sorte está carregada de azares. Não sei por quê mas os meus estrugidos queimam-se todos, assim como os meus respectivos aventais bordados à mão.
No acidente de camioneta todos se salvaram excepto eu, que parti a perna em três lados. Se alguém cai e dá um berro, eu caio e berro em dobro. Quando vou à pesca ao rio os peixes vão dar uma volta até ao mar.

Milagre tive eu quando num dia de gente arrodos, num hipermercado, fui único refém de um bando de assaltantes que, por felicidade minha, fizeram a infância comigo num colégio de correcção. O azar persegue-me. Eu bem lhe finto mas acabo marcando golos na própria baliza. Na escola era o primeiro em quase tudo, principalmente a ir ao quadro e a experimentar as réguas. No dia em que ia começar a ter aulas de piano, fiquei tão contente que quis lançar um foguete ao ar, e não é que o gajo estourou-se-me nas mãos. O médico deu-me alta passados três dias. Mal saí do hospital tive de regressar devido a um traumatismo craniano. Quis descer as escadas de dez em dez degraus, para impressionar uma enfermeira que dava boas picas.

Quem me acompanha acaba por ter azar igual. Por isso ando sempre só, a piscar o olho às andorinhas, mas sempre com aquele cuidado. Não vá uma delas fazer na minha careca precoce. Afinal o que sou? O meu pai diz-me que já o pai o pai do pai dele era assim. A minha mãe quando lhe pergunto começa a rezar para não ter de chamar de novo o espiritista. Enfim, sou aquilo a que se chama: um sortudo dos diabos!

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=123402

O SEM-ORELHAS - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

É assim porque é. Nasceu assim. Com aquele defeito horrível, cria impressão e nojo para alguns. Nasceu sem orelhas.
Agora imagina uma cabeça sem orelhas, sem onde teres amarrar a haste dos óculos, sem teres aqueles dois pedaços insignificantes de carne, que nas mulheres passam despercebidas porque cobrem-nas com os cabelos longos.

Estás a imaginar este homem, a caminhar pela rua, a ser olhado, a ser comentado, a ser motivo de riso para alguns badamecos.
Diz-me, aproxima-te, gostarias de andar pelas ruas assim, sem orelhas, só com um buraco de cada lado da cabeça, que é o que tem este homem? Olha que eu não. Não ter orelhas é quase como não ter boca para falar.
Se fosse não ter uma mão, sempre dá para disfarçar, metendo o punho da camisola que esconde o toco, dentro do bolso, fazer de conta que tem. Mas na verdade ela não está lá. Mas só tu sabes. Este caso é diferente. Podes colocar um chapéu que toda a gente vai reparar e dizer: olha aquele não tem orelhas.

E quando foste criança estás a ver o filme. Todos os amigos a reinar, a apontar o dedo e tu, a esconderes-te no fim da sala, tão calado que parece que nem ali estás.
Ficas feito anormal a fazer de conta que a vida não é nada contigo. A solidão a dizimar-te por completo. Ficar em casa o mais tempo possível, ter vontade de escarrar no espelho sempre que te vês. Porque és feio. Diferente. Não tens orelhas. Tens um buraco de cada lado na cabeça. E és capaz de chorar por ali. Não sei, nunca vi, estou a supor. Deixa-me supor que sou feliz. Tenho orelhas.

O homem é triste, tenta disfarçar mas é pior. Deixa crescer o cabelo como as mulheres e isso dá-lhe alguma vantagem. Tem dias que menos mal. Quando está vento é pior.
Levanta-se o cabelo e nota-se que não tem orelhas.
Por isso evitas sair de casa quando está vento, não é assim?
Conta-me.
Como é sair à rua e ser olhado de maneira incalculável.
Tanto que te olham que o teu rosto está gasto. Sei que ignoras porque tens uma força vinda de uma mulher que tu amas.
Mas ela não sabe que tu não tens orelhas e por isso ela passa-te bola. Ela pergunta porque é que não cortas o cabelo dos lados e tu mudas a conversa.

No outro dia ela quis te tocar e tu não deixaste. Iria saber logo ali, que tu não tens orelhas.
E podia dizer não, ou dar-lhe uma coisa má no estômago.
O teu medo é que estás a crescer e o cabelo vai começar a cair e depois não há como disfarçar verdadeiramente.
Os buracos vão ficar a apanhar ar, à vista de todos, na boca do mundo.
Serás falado pelo que não tem orelhas. És um caso de silêncio.
Fala.
A tua mãe já cá não está para te pentear como fazia dantes. Tão bem arranjadinho que criava suspeita pois não se notava aquele altinho no cabelo.

O pior foi quando os teus amigos souberam. Ainda que escondesses o não ter orelhas debaixo do cabelo eles sabiam que não tinhas.
E vinham quatro ou cinco amarrar em ti para confirmar.
E viam à força que tinhas um buraco de cada lado. E espreitavam lá para dentro, como se quisessem ver o que há em ti.
E tu choravas por não conseguires te defender. Eles eram quatro ou cinco. Ou talvez sonhasses com isso a noite inteira.
Agora estou confuso. Tens que me dizer.

Tu dizias aos amigos que elas iam crescer.
Foi o que o médico te disse, para te consolar. Depois soubeste que as orelhas não crescem como cresce as unhas e o cabelo.
Depois soubeste que as raparigas não gostam de rapazes que não têm orelhas. Desculpa eu estar sempre a dizer que não tens orelhas.

Não quero com isto te amedrontar. Pior é não ter alma, vai por mim. Agora és grande e estás a ficar careca.
A mulher que tu amas vai partir com certeza. Ela vai saber mais dia, menos dia.
Ou, espera lá, será que ela não sabe mesmo?
Ou será que ela também esconde alguma coisa?

Eis a questão: por muito ou quase nada sejam as dúvidas ou as certezas só o amor é que quebra as grandes muralhas.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=123096

Sê - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33




Não desistas de seres alguém
Sê capaz de te suicidares num poema
Mas atenção que a Vida não se pinta com Robbialac

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=121164

sobre o amor - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

Que me ceguem as tardes
Que me roubem a alegria ao subir da estrada
Ou que todos os bichos me visitem quando estiver a fazer amor
Se esse amor não tiver contornos de uma rosa

Eu amo uma mulher
Uma epopeia de ventos e sóis
Uma árvore que cresce no sentido dos meus pulmões

Pergunto:
Tenho a janela aberta, será que dói?
Quem tem gramática para compreender o implacável silêncio?

Aqui estou de frente ao tempo invisível
A dar-lhe palha por uma fechadura
Multiplicando abelhas para sermos muitos mais que um Desejo

Que a minha loucura seja tabaco de enrolar
Que a solidão seja o espelho em que me olho e não veja porra nenhuma!
Amo as coisas que se formam no precipício da carne
Os azuis tão inocentes de um nada
A claridade que bate e perfura o mais íntimo de nós

Eu digo: a minha cabeça é um rebanho de ovelhas
O meu corpo: o pastor que se perdeu no pasto
Pena é que a lucidez não se beba por um copo
Nem que a verdade aceite fiado
O amor é aqui e agora: pele contra pele
E não sequer pensar que futuro é
Para a semana que vem

Amo sem nunca ter assinado contrato
Sem nunca ter ido a uma biblioteca
Ou escutado a dor em greve de fome
Crio o vazio e nele creio
Como creio na libertação das minhas mãos
No barro que moldo as manhãs primordiais

Amo o analfabetismo do meu sangue
Amo os insectos que me esperam no caminho
Amo o cansaço com que me deito
Amo e sou feliz nessa contradição

Posso até ser a morte viva
Um lápis à espera de ser aparado
Mas amo! Amo!
Amo e canto a serenata no hall do silêncio
e faço sexo com o meu nariz!



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=120894

das duas três - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33





Se o amor é uma ciência, a foda é uma religião










Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=119901

ó deus, ó pá - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

Por que não olhas pelas criancinhas, pá? Por que não estás onde devias estar? Por que não respondes quando te perguntam? Deus, que conversa vem a ser essa de andares para aí a dizer que uns se salvam e outros não? Quem te fez assim tão ventoso que por vezes nem te escuto? Responde, pá! Inventaste os super-heróis para fazer serviço extra? Mandaste os poetas para a terra despachar certos assuntos que não ousas falar? Deus, e o amor? Responde, pá! Serás tu o nosso Deus bandido? Será o teu silêncio a maneira romântica de seres alguém? No fundo admiro-te, pá, porque, embora triste e olhar distante, mãos deprimidas, eu sei que tens as costas largas.

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=118860

o pintor não morreu - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33



Era obsessivo, o pintor. Chegou a ser tão obsessivo com a sua arte, tão obsessivo, que um dia fez amor com uma natureza morta, e ressuscitou-a!


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=118602

Como se fazem os ateus - flavio silver - 21Mar2010 15:14:33

Assim se fazem os ateus

Foi num dia de ora sol ora chuva. Qualquer pedaço do céu daria um retrato. Mas todas as imagens de repente viram bruscas e sabe-se lá porquê.
O Jorge da Conceição foi levar o rebanho ao monte, subiu colinas inteiras, tocou com a cara no vento frio, há sítios em que não se espanta a solidão. Muito menos lá em cima. As ovelhinhas em pasto tranquilo, mamando erva da boa, os cavalos lá em baixo em liberdade, uma águia no alto supervisionando o ambiente, uns pequenos caracóis em banhos de sol, um coelho bravo que corre atrás de uma lagartixa que é manca. Enfim, a natureza no seu melhor.

Jorge da Conceição sentado numa pedra fria, de realejo nos beiços tocando uma melodia nem assada nem frita, um som assim-assim.
Eu não falei mas, também havia uns insectos em acasalamento, umas flores espevitadas pela luz do meio-dia, uma cobra que de venenosa só tem o seu silêncio de andar. O ar é calmo e o pensamento também. Juntos fazem a harmonia. Adão e Eva assim se declararam um ao outro, se despiram sem ilusões ou manobras cinematográficas. Tudo é bom quando o nada se apodera. Quem dera, diz o Jorge da Conceição no seu vago infinito de memória quando se lembra da última vez com a Isaurinda. Ele, despenteado com uma árvore em nortada. Ela, a mostrar como está crescida. E juntos percorreram as arábias um do outro, em suores escaldantes, que o põe a pensar no bom que seria se agora fosse outra vez.

O realejo continua, como que chamando o queijo para dentro do pão. Só que aqui a fome é outra. Stop! Eis que alguém surge ao longe. Um ponto a crescer no horizonte, em cada passo e gesto. Uma mulher que irá ter com ele, fazer amor com ele, ouvirá da boca dele todas as histórias.

Afinal Deus existe, desabafa o Jorge da Conceição assim que topa que a mulher tem desejo igual ao dele. Pode até a dúvida ser um castelo que se desmorona, mas ele aqui será rei de uma qualquer aventura. Assim crê. Como acredita que este dia não terá fim nem não. É preciso amar para não perder o ritmo sanguíneo.

A deusa vem lá. Caminha como uma onça no seu recreio.
Exibe a sua naturalidade com uma erva mansa.
A poesia será um bom cobertor. Oxalá! O Jorge da Conceição sacode as calças, ajeita o colarinho, branqueia as palmas das mãos com um pouco de cuspo.

Não me mandem parar este filme agora.
Eu sou narrador mas não tenho nada a ver com isto.
Não fui eu quem colocou a mulher no texto. Foi o Jorge da Conceição que no seu íntimo a desejou. O único sacrifício no amor é não se poder dar três ou quatro seguidas.

(Ninguém chora o seu próprio pulmão)

Eles cada vez mais perto um do outro.

(Porque somos animais tão lentos?).

O céu sente a aproximação daqueles dois corpos e lança uma chuva miudinha para compor o cenário. Visto daqui tudo é bonito.
Ela acena. Ele também.
A mulher tem um ar fresco de quem nunca roubou beijo a um outro homem. As suas pernas são de quem corre atrás de uma fantasia.
Parece coxear um pouquinho, mas deve ser das irregularidades do solo. É alta como a que vira nos sonhos. Jorge da Conceição pára de agradecer a Deus para puxar um cigarro e beber mais um gole do bagaço que o mantém.
As horas deixam de ser horas para serem pássaros estáticos onde os podemos agarrar.
O amor será entretanto. Daqui a dois ou três parágrafos. Tomara que sim! Quando, muito perto de se tocarem, de sentirem o que é quente, de saberem que no final a natureza irá aplaudir, seus lábios mexendo,
como sede que morre,
o aperto dos corpos,
as mãos,
as pernas,
os olhos formando unidade,
a mulher, que vem ligeiramente cansada de subir a alta colina, finalmente chegou perto do Jorge da Conceição, num respiro que deu para provocar nele uma pequena erecção.

Pede-lhe que a siga. E voltam a descer a colina. Agora os dois. Talvez haja por ali uma casinha que melhor nos agasalhe, pensou o Jorge da Conceição. A loucura mantém-se de pé. E o desejo nem se fala. Ela à frente, ele, ligeiramente atrás avaliando as curvas. Mas que curvas! Obrigado Deus! Terá motivos para cantar a beleza em todos os pores-do-sol.

O silêncio diz mais que a verdade, mas nesta hora de anseios não chega. Quando ele ia para falar, com todo o seu sangue desperto, ela interrompeu-o e, em apressada e preocupada voz, falou:

- Rápido, o meu marido caiu do cavalo! Precisamos da sua ajuda!

E Jorge da Conceição, fulo como uma galinha excluída da cobrição do macho, olhou o céu e resmungou por entre os dentes: é por estas e por outras que assim se fazem os ateus!



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=117883